Não basta a revolução feminina ter marcado este século. O significativo
avanço das mulheres em várias áreas e setores não consegue encobrir a mais cruel
sequela da discriminação: a violência doméstica.
Ainda que o momento não comporte uma análise mais acurada sobre as
causas de o amor gerar dor, é inquestionável que a ideologia patriarcal ainda subsiste,
leva o homem a ter-se como proprietário do corpo e da vontade da mulher e dos filhos.
Essa errônea consciência de uma situação de poder é que assegura o suposto direito
de o macho fazer uso de sua superioridade corporal e força física sobre a fêmea.
Ao homem sempre coube o espaço público, e a mulher foi confinada nos
limites do lar, no cuidado da família. Isso enseja a formação de dois mundos: um de
dominação, externo, produtor; o outro de submissão, interno e reprodutor. A essa
distinção estão associados os papéis ideais de homens e mulheres: ele provendo a
família e ela cuidando do lar, cada um desempenhando a sua função. Os padrões de
comportamento instituídos distintamente para homens e mulheres levam à geração de
um verdadeiro código de honra. A sociedade outorga ao macho um papel paternalista,
exigindo uma postura de submissão da fêmea. As mulheres acabam recebendo uma
educação diferenciada, pois necessitam ser mais controladas, mais limitadas em suas
aspirações e desejos. Por isso o tabu da virgindade, a restrição ao exercício da
sexualidade e a sacralização da maternidade. Ambos os universos, ativo e passivo,
distanciados mas dependentes entre si, buscam manter a bipolaridade bem definida,
sendo que ao autoritarismo corresponde o modelo de submissão.
A evolução da Medicina, com a descoberta de métodos contraceptivos, bem
como as lutas emancipatórias levaram ao surgimento de uma nova postura feminina,
que acabou impondo a redefinição do modelo ideal de família. A mulher, ao integrar-se
no mercado de trabalho, saiu para fora do lar, cobrando do varão a necessidade de
assumir responsabilidades dentro de casa. Essa mudança acabou por provocar o
afastamento do parâmetro preestabelecido, gerando um clima propício ao surgimento
de conflitos.
Nesse contexto é que transborda a violência, que tem como justificativa a
cobrança de possíveis falhas no cumprimento ideal dos papéis de gênero. Quando um
não está satisfeito com a atuação do outro no cumprimento do modelo, surge a guerra
dos sexos, e cada um dos envolvidos usa suas armas: eles, os músculos; elas, as
lágrimas.
As mulheres, por evidente, levam a pior, tornando-se vítimas da violência
masculina.
Acostumada a realizar-se exclusivamente com o sucesso de seu par e o
pleno desenvolvimento de seus filhos, não consegue, essa nova mulher, encontrar em
si mesma o centro de gratificação, o que gera um profundo sentimento de culpa que a
impede de usar a queixa como forma de fazer cessar a agressão. É que, em seu
íntimo, se acha merecedora da punição, por ter desatendido às tarefas que lhe são
afeitas como a rainha do lar.
O medo, a dependência econômica, o sentimento de inferioridade, a baixa
auto-estima, decorrentes da ausência de pontos de realização pessoais, sempre
impuseram à mulher a lei do silêncio. Raros os casos em que se encorajam a revelar a
agressão ocorrida dentro do lar.
Somente a partir da conscientização de que o novo modelo de família deve
se basear na mútua colaboração e no afeto é que se poderá chegar à tão almejada
igualdade e ao fim da violência.